16 May

O Padroeiro da Ibéria”, um romance histórico de altíssima qualidade do escritor transmontano Jorge Laiginhas

D. Nun’Álvares Pereira (1360-1431) é um dos condestáveis do reino de Portugal mais afamados da nossa história. Durante a crise de 1383-1385, desencadeada pela morte de D. Fernando, que colocou em risco a independência de Portugal, liderou o exército português a várias vitórias, sendo a mais conhecida a da Batalha de Aljubarrota. Depois de enviuvar, entrou para o Mosteiro do Carmo, por ele fundado, tomando o nome de frei Nuno de Santa Maria. Por ter dedicado os seus últimos dias à Igreja e a ajudar os mais pobres, após a sua morte o povo apelidou-o de Santo Condestável. Foi beatificado em 1918.

Alternando períodos históricos, em que relata episódios da vida de D. Nun’Alvares Pereira, e a actualidade, na qual se desenrola uma trama que tem por pano de fundo o movimento iberista, que pretende unificar Portugal e Espanha, O Padroeiro da Ibéria é um livro inquietante, pleno de mistério.

Excerto

“O Mestre apertou-me a mão sem dizer uma só palavra que fosse. Apenas genuflectiu. Como se eu fosse um santo e ele um adorador do santo. O ex-ministro falava. Eu escutava. Explicou-me que o movimento ‘A Ibéria’ tem já ‘irmãos’ infiltrados em todos os executivos municipais raianos, de um e do outro lado da fronteira; que grandes empresários portugueses e espanhóis estão a financiar toda a logística do movimento; que as chefias das forças armadas de ambos os países estão representadas no sinédrio; que por voto secreto, no sinédrio do dia 6 de Novembro de 2000 – 6 de Novembro é o dia festivo de frei Nuno de Santa Maria – se aprovou que, após a reunificação da república portuguesa e do reino espanhol, o regime político da Ibéria – assim se passará a chamar a grande nação que irá resultar da reunificação da Península Ibérica – será a Monarquia Constitucional… Quando saímos da Casa da Câmara, já próximo do meio-dia, reparei, não obstante o nevoeiro, que estava a ser observado por três homens sentados nas escadas da Torre dos Namorados. Rodei a cabeça, como quem se sente perseguido, e pude ver uma senhora em pé na Torre do Monte. Segurava uma máquina fotográfica com uma enorme objectiva e disparava fotografias na minha direcção como se, ela, fosse um soldado a disparar, raivosamente, sobre o inimigo. – Não se assuste, professor. São ‘irmãos’ – sossegou-me o ex-ministro. – Olhe, disfarçadamente, na direcção da Torre do Relógio e verá que também aí temos vigias. Gostamos de fazer estas cerimónias em recato. Desta maneira, em pequenos grupos e com máquinas fotográficas ou sacos a tiracolo, passamos por vulgares turistas. Alguns de entre nós, nunca os mesmos no espaço de três meses mesmo que em lugares diferentes, conversam com os habitantes locais e compram produtos da região.”

Edição/reimpressão: 2008
Páginas: 264
Editor: O Quinto Selo

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Crítica

“Jorge Laiginhas é decerto um dos valores mais sólidos da actual literatura de ficção trasmontana e alto-duriense. Senhor de uma técnica narrativa seguríssima, de uma linguagem ágil e bem servida de metáforas, tem vindo a publicar regularmente os seus romances, numa primeira fase muito ligados ao Douro natal e agora, numa segunda fase, mais presos a personagens e factos da vida nacional.
É assim que acaba de surgir, com a chancela de O Quinto Selo, O Padroeiro da Ibéria – D. Nuno Álvares Pereira, título que se afigura contraditório, dado que o Santo Condestável foi exactamente um dos travões ao iberismo, mas que o desenrolar do entrecho acaba por justificar.
Neste romance que se lê dum fôlego, não obstante as suas 260 páginas e a estrutura algo invulgar, Jorge Laiginhas faz a apologia do Iberismo, uma das ideias mais polémicas, mas também mais recorrentes, do nosso pensamento político. De resto esta sua opção pela Ibéria é tão enraizada, que na badana do livro se lê: “Jorge Laiginhas nasceu na aldeia de Safres, Península Ibérica (…)” In site do “Grémio Literário Vila – Realense”.

Esboço Biográfico

Jorge Laiginhas nasceu em Safres, povoação da freguesia de São Mamede de Ribatua, concelho de Alijó, em 1961; licenciou-se em História e tem uma pós-graduação em Ciências Documentais.

É Director da Biblioteca Municipal de Alijó e autor, entre outras, das seguintes obras: Ressaca em Ribatua. Romance, Lisboa, Editorial Escritor, Ldª, 2001; Monárquica paixão. Romance, Lisboa, Editorial Escritor, Ldª, 2002; No poisar do silêncio. Romance, Lisboa: Editorial Escritor, Ldª, 2003; O segredo de D. Afonso Henriques. Romance, Cascais, Flamingo, 2007; O Padroeiro da Ibéria, D. Nun´Álvares Pereira. Romance, O Quinto Selo, 2008.