25 Jun

ESCRITORES / POETAS: Maria Lúcia de Araújo Nogueira

Maria Lúcia de Araújo Nogueira

Advogada e escritora

Nascida em Afogados da Ingazeira, de lá saiu para residir na cidade do Recife, onde mora e está baseada sua família. Entre contos e crônicas publicados, destaco os dois livros escritos por ela: FRAGMENTOS DA VIDA E ABSTRAÇÃO, ambos inspirados na sua vivência familiar, no seu amor a vida e na descoberta de que pode escrever, sem medo ou vergonha no coração, apenas a certeza de que tudo é possível, quando se leva a verdade nos lábios.

A Maria Lúcia, parabéns e votos de que continue a criar e nos brinde com sua verte literária, anotando suas impressões sobre o cotidiano, sobre a vida, sobre o amor, num questionamento insofismável que ronda toda a nossa existência. Com os olhos encharcados por esse pitoresco trabalho, no mistério lírico de suas escritas, surgidas com o gemer do lápis em sua mão, peço que não estanque sua veia imaginativa e não tenha receio da avaliação crítica que virá, ela faz parte da aventura de quem aprende e quer melhorar.

Siga em frente, COM JEITO DE FAZER deixará de ser o jeito de você falar do amor, da fábula e do pitoresco, para se tornar um hino aos que não têm temor de ousar.

Alberto Nogueira Virginio.

O RIO DA MINHA TERRA

Alegria indizível trazida
Pelo ventre das chuvas dos ventos alísios.
O mandacaru florou,
A seca foi embora,

O feijão canivetou,
O milho encanou e bonecou,
Os barreiros encheram
E o gado refestelou-se na pastagem verdejante

Tudo isso porque o Rio Pajeú, que nasce em Itapetim
Correu para a minha cidade
E afogou o que estava queimado pelo sol,
A ingazeira renasceu.

As pedras estão brilhantes,
Ensaboadas pelas águas barrentas, que rebolaram
Pelas terras de São José do Egito,
Entram em Tabira e penetram leito adentro

Espichando garranchos
Destruindo a pasta verde que tomou o seu lugar.
O povo, em festa, pendura-se nas pontes,
E mergulha o olhar na imensidão da água que ocupa tanto.

Nem o açoite dos ventos,
Nem o balançar da ponte, tomada de gente de todos os credos
Nem os pilares mergulhados no barro,
Nem a cobra verde que pede socorro para não ser arrastada pelas águas ruidosas

Nem o ribombo do trovão,
Nem o alumiado dos raios,
Nada é capaz de tirar dessa gente, o feitiço provocado pelo Rio Pajeú
O alumbramento é tamanho

Que toda a destruição feita ao rio,
São águas passadas e levadas sem rastro,
O tapete verde foi puxado para dar passagem ao seu dono
Ausente por tanto tempo,

Mas presente na lembrança dos mais velhos que lhe respeitam
E seguem suas enchentes.
Um rio que nasce sozinho e que entra noutro rio
Que carrega Francisco no nome,

E é santo por devoção,
Porque ninguém encontra um rio tão necessário e cativo,
Que enrica quem o tem aos seus pés
Que dá do mesmo tanto que recebe.

No jeito retumbante que mostra,
Na cor amarelo queimado da terra,
No som profundo que traz,
Na garganta poderosa que possui,

No enfeite de renda branca espumosa
Ladeando um canto a outro suas barreiras.
A água, numa corredeira de beleza sem igual,
Não mitiga o azul do céu encoberto,

De cinza e chuva suspensa
Azul, amarelo, branco e verde da nossa bandeira,
Cores vivas e fortes
Que se tocam em harmonia

E se completam nos gritos dos trovões assustadores,
A soltar coriscos pinotando sobre os lajedos
Clareando seu caminho pelos raios potentes
Que rasgam o firmamento e se perdem na terra barrenta,

Encharcada de fortuna e abundância
Pelas enchentes do Pajeú
Que majestoso confirma seu reinado triunfante
E segue uma trilha só dele conhecida
Para encontrar e se misturar ao velho Chico mineiro,
E entrar no mar do mundo de todos os mistérios.

Recife, 18 de dezembro de 2009
Maria Lúcia Nogueira

RUSTICIDADE CRUEL

Nas pedras descobertas no Sertão esquecido,
Sem vegetação que as cubram, veem-se a olho nu,
Sujas de barro cru, as locas onde se escondem preás, punares
e outros bichos comuns, nos carrascais sertanejos,
Que se furtam do sol impiedoso que os queima.
Nesse mundo tão grande sobra espaço até para se tirar leite
de pedra.
Ou é leite do aveloz?
O preá e algumas aves matam a fome de tantos homens,
Que se espremem para viver
E ainda, são considerados parias da sociedade.
Homens honestos, simples,
Que não roubam, nem envergonham,
Mas que são considerados, por alguns, imprestáveis e
viciados em preguiça.
Esses homens não exigem nada, mas esperam mudanças
verdadeiras
Nos espíritos empedernidos e arrogantes daqueles que
podem ajudá-los
A sair dessa vida escondida, ornada de cactos e mulungus,
Eles também plantam na paisagem altiva que se agiganta a
cada ano.
O descaso com o desnecessário incomoda a quem não está
acostumado a viver com tão pouco.
O homem espreita o preá, que lhe escapa e sobrevive.
A rolinha voa e despista o alvo certeiro. Não é levada dentro
de um bornal, morta. Restando a estes homens, muitas vezes,
as vagens de mucunãns, para serem comidas de gente que
aguarda com pratos limpos, por algo que lhe caia do céu.
Esse sim, é o povo bronze, pintado em cinzel, crente,
Que perambula nesse solo de pereiros, caatinga, aveloz e
cactos,
Cocada de coco queimado, corajoso e astuto, consciente de
suas limitações, gigante em suas emoções.

Malu Nogueira
entrelacosdocoracao.blogspot.com

TZIU

O tiziu, com suas penas preto-azuladas,
Mais umas brancas no peito,
Pula de árvore em árvore,
Catando galhos sem folhas,
Pula e pula, sempre no mesmo lugar,
Em minúsculos vôos verticais,
Nos campos desse sertão longínquo
Chegou a vez dele,
Ele voltou feliz
E trouxe as chuvas
Que traz as folhas verdejantes,
Qual tapete tecido amorosamente
Recebem o inesperado hóspede
Ele olha tudo a sua volta
Confere, em alegria,
O que a chuva fez,
Muita semente verde, capim,
Frutas maduras, abertas para ele saborear,
Água para beber,
Amigos para tricotar,
Poleiros e mais poleiros para sacotear,
Que bom voltar e ficar
Nesses dias intensos,
Clareados por raios,
Despertados por trovões
Esfriados na garoa.
Mais amigos que chegam
A mostrar seus filhotes
Com alarido e penas
Nos galhos molhados e lisos
“tis-ziu, tis-ziu, tis-ziu
Canta em exibição o tiziu pretinho.
Toda passarinhada acode,
Vem ver o que o nego trouxe na bagagem:
Uma trouxa de fartura,
Um pacote de botões de flores,
Toneladas de sementes,
Sacos de pólen,
Balões de ar fresco,
As negras asas do pequeno tiziu
Vergaram-se sob o peso de tão preciosa carga.

Maria Lúcia de Araújo Nogueira
www.portaldoescritorpe.com

Quando do lançameno do seu livro COM JEITO DE FAZER (Edições BAGAÇO), o presidente da Academia Pernambucana de Letras fez sua apresentação:

Diletíssima Dra. Maria Lúcia de Araújo Nogueira.

ALGUMAS PALAVRAS COM SABOR DE SERTÃO

A mim, me coube, através de gentil convite, a subida honra desta saudação. Faço-a com a alma repleta de contentamento e o júbilo de quem fala sobre uma escritora que tem a mente transbordante de idéias e um desejo enorme de extrapolar os seus nobres sentimentos.

Conheço de perto a lavra literária da Dra. Maria Lúcia, essa sertaneja que traz no coração o bem querer da terra/berço e na memória, o panorama inconfundível da sua infância dividida entre a cidade e o campo. O campo donde emana o cheiro de curral e a cantata do carro de boi pela voz dolente dos cocões de aroeira.

Temos, afinal, a publicação de um dos livros dessa escritora. Digo assim, porque este “COM JEITO DE FAZER” não é a primeira obra escrita por essa espontânea poetisa. Já tive o prazer imenso de ler os originais de outros filhotes literários dessa sertaneja de Afogados da Ingazeira.

Nascida naqueles rincões e envolvida no manto sagrado da caatinga nordestina, acostumada a correr nas campinas verdejantes das várzeas do lendário Pajeú, rio cantado e decantado pelas violas plangentes dos repentistas de lá.

Vivenciada e conhecedora profunda da fala e dos costumes da gente do sertão, Maria Lúcia, possui um raciocínio rápido e uma privilegiada mente fotográfica, tendo ainda uma memória armazenadora de fatos e paisagens, do pretérito e da atualidade.

As flores das Ingazeiras, as que não foram afogadas, dos ipês roxo/amarelos, dos umbuzeiros e dos xiquexiques rasteiros da terra calcinada deram, com seu perfume, a inspiração poética e criativa dessa autora imediatista. A gargalhada heróica das casacas de couro, o canto mavioso do sabiá-do-sertão, o grito monocórdio da seriema, o descanso da codorniz nas moitas dos serrotões, toda essa paisagem enriquece a poesia dessa conterrânea.

Este “COM JEITO DE FAZER” traz nas suas páginas um somatório de prosas poéticas e versos heterométricos.

Dissociada dos rigores da métrica e do processo poético universal, Maria Lúcia, na ansiedade de expelir o conteúdo imagístico da mente, joga no papel a sua poesia esvoaçante, livre e desimpedida, telúrica e sertaneja, corajosa e independente. Poesia cheia do sabor nordestino: da buchada ao rubacão, do bode assado ao mugunzá, do cuscuz de ralo ao capão de chiqueiro.

Escritora neófita no mundo das letras, porém veterana no universo da vida. Bacharela em Direito e doutora formada pela universidade do Pajeú, berço de poetas iluminados pelo sol causticante do semi-árido, onde o som da viola confunde-se com o gorjeio do passaredo e a poesia assume a musicalidade incomparável, oriunda dos matagais rasteiros e das capoeiras ressequidas do Nordeste.

No poema ALVORECER, se referindo ao enlevo da adolescência junto ao namorado, diz a certa altura: “tudo muito inocente,/ mesmo o sutil toque das mãos./ a noite era cúmplice dessa felicidade infantil./ O desejo de descobrir estava estampado em nossos rostos. / O coração primaveril festejava o amor descoberto”.

Vemos neste poema o sentimento fraternal e romântico traduzido numa narrativa verossímil e autêntica da menina-moça sertaneja. Da menina acostumada com o falar do velho cachimbador, da mulher apanhadora de algodão, da cevadeira na casa de farinha, do menino caçador de rolinhas nas noites de facheadas, do vaqueiro encourado exibindo através do gibão a raça incomparável do homem campesino. Eis a convivência da adolescente, no dia-a-dia da vida e nas horas de recreio do colégio inesquecível.

Este livro, a primeira vista parece uma mistura de prosa e poesia, onde não se lhe deu uma seleção mais acurada. Não é bem assim. Ele demonstra o cabedal, a cachoeira de palavras que jorra da mente iluminada da poetisa. A produção literária de Maria Lúcia é abundante. As crônicas aqui expressas também se revestem de um conteúdo poético que lhes assegura e justifica a inserção no âmbito desta obra.

Em BOLO DE CASAMENTO encontramos uma grande criatividade:

Ingredientes:

“Um par de noivos felizes, / um par de alianças de ouro, / uma medida sem fim de amor infinito, / toneladas de respeito e paciência, / potes de sonhos, / um mundo de realizações, / uma pitada de sal, / fermento o quanto baste, / nuvens de carinho e alegria, / uma casa nova, / quilômetros de abnegação e zelo”.

Depois ela apresenta o modo de preparo.

Este é um poema criativo e ao mesmo tempo uma mensagem de convivência conjugal tão importante nos dias de hoje, onde o verbo “ficar” fala mais alto.

Destaco, a seguir, o conteúdo erótico/filosófico do poema:

UMA CERTEZA

“Meu pensamento questionador, não decifra o horizonte. / Na porta entreaberta do meu eu, há algo inacabado. / As estrelas que não vi no firmamento hoje, com certeza as verei amanhã. / O sol só me queimou, porque eu a ele me expus. / O vento não pediu permissão para mexer nos meus cabelos.

E conclui:

… O sol me queimou, para que eu me recordasse do calor que você deixa em meu corpo sequioso de afagos. / O vento quando me veio trouxe a lembrança de suas mãos a acariciarem minha pele, sedenta de traquinagem, por toda a minha vida”

Esta é mais uma característica deste livro: a liberdade de expressão, sem cacoetes, sem meias palavras, sem hipocrisia.

De repente, o livro COM JEITO DE FAZER fala com o jeito do Pajeú. As primas e os bordões das violas dos cantadores sonorizam os versos nas duas quadras do poema:

IMPROVISO DA VIOLA

“Não há nada mais perfeito / do que a viola que transcreve de leve / O canto triste que escreve / o retrato da dor do peito. / No meu canto eu guio / a aridez do meu coração / mesquinho e sem emoção / que por você rodopia sem fio”.

A miscelânea polimétrica de rimas consoantes deste poema destaca valor no livro e mostra uma abrangência considerável do jeito de escrever de Maria Lúcia. Do jeito como o povo do sertão se comunica: enquanto o violeiro se utiliza da métrica perfeita e da rima impecável na poesia, o povo sertanejo, independente dos cantadores, tem uma linguagem eminentemente heterogênea e descontraída.

Na quantidade de escritos desta cronista, a busca da qualidade fica mais viável, uma vez que há o universo quantitativo para a escolha exigente de cada leitor.

O livro COM JEITO DE FAZER chega ao cenário da literatura pernambucana. Quem ler este livro terá a oportunidade de perceber o transbordar verbal da autora. Ela insere ainda, uma crônica intitulada RUSTICIDADE ADOCICADA: um relato autêntico da lufa-lufa diária do homem do campo e o império da lei pela força maior: Pai Velho representa aqui o senhor de engenho semelhante aos seus ancestrais possuidores de escravos. Vale conhecer os detalhes das tarefas e a tramitação do trabalho na fabricação de açúcar, rapadura e aguardente no sertão e em todo o Nordeste brasileiro.

Receba Dra. Maria Lúcia de Araújo Nogueira, os meus parabéns e a certeza de que o seu fazer literário terá lugar no âmbito da literatura pernambucana. Prossiga na sua missão vocacional de sempre escrever. Abra o cofre intelectivo da mente, burilando a sua prosa/poética com o objetivo primordial de mostrar que a arte é coirmã da técnica e da beleza.

A brisa mansa do Pajeú e o arrulho da asa-branca serão sempre porta-vozes fidedignos da sua poesia.

Muito obrigado!

Carlos Severiano Cavalcanti