3 Jul

Tributo a Quincas Rafael

Se meu pai estivesse vivo
Completaria noventa,
A saudade só aumenta
No meu coração cativo.
Com único lenitivo
Ficou sua poesia
Que traduz com maestria
As coisas do meu sertão
E assim por devoção
Eu faço esta honraria.
 
Obrigado por dito
A mim com simplicidade
O valor de uma verdade
E o malefício de um grito.
Por mostrar como é bonito
Viver sempre com decência
A pureza da inocência
E o resultado da fé
Mostraste a mim o que é
O terror da violência.
 
O seu exemplo fará
Parte do meu dia-a-dia
Seus versos têm a magia
Da sua Jabitacá
Sua alegria será
Todo dia copiada
E a sua gargalhada
Inda soa em meus ouvidos
Seus passos serão seguidos
Nessa minha caminhada.

Ademar Rafael Ferreira
Marabá-PA, 25 de fevereiro de 2011


Homenagem ao meu pai


(Permitam-me fazer esta homenagem ao meu pai Quincas Rafael, cujo
falecimento está para completar 10 anos.)

Me ensinou: “Cuide do alheio / Aprenda com o rude e o fidalgo,
Não reclame da vida tendo algo / Não critique quem fez um papel feio
A um irmão que está no aperreio / Dê amor, carinho, casa e pão
Tema a Deus e tenha devoção / Como fez o profeta Ezequiel”
São dez anos sem Quincas Rafael / Uma década de luto no sertão.

Ele criticou sem medo, / Roberto, Múcio e Joaquim.
Não gostava de Delfim / Golbery nem Figueiredo
Nunca levantou um dedo / Em defesa do “Rei do Maranhão”
Apoiava Gregório e Julião / Não gostava de Marco Maciel
São dez anos sem Quincas Rafael / Uma década de luto no sertão.

Defendia o povo nordestino / Em cada estrofe que fazia
Foi devoto ardoroso de Maria / Escreveu sobre Adolfo Nobelino
Concordava com a causa de Silvino, / De Lamarca, Zumbi e Lampião,
Conselheiro, Frei Caneca e Osvaldão, / Zé Pereira, Guevara e de Fidel,
São dez anos sem Quincas Rafael / Uma década de luto no sertão.

Ademar Rafael Ferreira
Marabá, PA Brasil – 13.10.2009

AFOGADOS – Cem anos com e sem você

Com você eu sorri na mocidade,
Sem você eu dormi pelas calçadas,
Com você eu varei mil madrugadas,
Sem você eu perdi a liberdade.

Com você persegui a humildade,
Sem você eu penei nas caminhadas,
Com você eu tracei novas estradas,
Sem você descobri o que é saudade.


Com você desenhei mais de mil planos,
Sem você nesta festa de cem anos,
Um de julho será sem alegria.

Sem você toda festa é diferente,
Com você eu espero brevemente,
Relembrar com afeto o grande dia.

Ademar Rafael Ferreira
Marabá-PA, 09.06.2009

Meio Século

Nesses meus cinquenta de idade / Procurei não ser vítima do destino,
Nem troquei os meus sonhos de menino / Por dinheiro nem por notoriedade.

Em defesa de plena liberdade / Atuei como anônimo paladino.
Fui poeta, fui louco e peregrino, / No “sertão”, na “vereda” e na cidade.

Com meus pais aprendi andar nos trilhos, / Com a minha esposa e com meus filhos
Aprendi a viver sendo feliz. / Esmaguei toda empáfia que eu tinha
Ao ouvir do “eterno” Gonzaguinha / A receita pra ser um “aprendiz”.

Ademar Rafael Ferreira
Vitória da Conquista, BA, Jan/2007

Para Sávio
15 anos, trinta versos II

Sávio, entenda que a vida. / Não dá direito à reprise.
Redobre as forças que a crise / Passará despercebida.
Nunca valorize o medo / Defina seu próprio enredo
Com muita serenidade, / Conduzindo a sua cruz.
Siga os ditos de Jesus / Com coragem e humildade.

Aprenda a conviver / Com opiniões contrárias
Coisas extraordinárias / Você irá aprender!
Não antecipe o futuro. / O único porto seguro
Que existe é o presente. / Seja íntegro, faça o bem.
Só se espelhe em alguém / Que for honesto e decente.

Não faça vestibular / Por grana, batas ou togas.
Fuja do mundo das drogas / A ninguém queira enganar.
Com denodo e coerência, / Tenha fé e persistência
Pra trilhar vários caminhos. / Rejeite as coisas danosas.
Aprenda cultivar rosas / Sem se ferir nos espinhos

Ademar Rafael Ferreira
Vitória da conquista, BA, jan/2007

Invocação Rotária

Quando o Rotary celebra o centenário,
Invoquemos a homens e mulheres:
Que a idéia marcante de Paul Harris
Seja inclusa em nosso itinerário.

Para um mundo sem fome, igualitário.
Recorremos ao poder da deusa Ceres
E seja enredo daquilo que fizeres
A Prova Quádrupla, maior símbolo Rotário.

Inspirados nos feitos de Gustavus,
Invistamos milhões e até centavos
Pra que a Pólio não alcance outro menino.

Que com gestos de amor e mente sã,
As visões de Silvester e de Hiram,
Renovemos nas batidas de um sino.

Ademar Rafael Ferreira
Presidente do Centenário do Rotary Clube de Marabá – Pará
Santarém-PA. 27 de fevereiro de 2005

Para Raíssa
15 anos, trinta versos

Jamais perca a inocência, / Cultue a simplicidade,
Busque a ética e a prudência / Junto da maioridade.
Respeite seu semelhante, / Seja sempre radiante
E ouça seu coração. / Faça tudo que quiser
E em tudo que fizer / Bote amor e emoção.

Não se deixe escravizar / Por pai, por mãe ou marido
E saiba como filtrar / O bom no conselho ouvido.
Aprenda com os sacrifícios / Não permita que os vícios
Venham abalar sua vida. / Não se humilhe a ninguém,
Só para Deus diga amém / Só ame sendo querida.

Não cultive hipocrisia, / Dê carinho ao penitente.
Plante sempre a alegria, / Seja honesta e combatente.
Não se abale com derrota. / Não persiga a melhor nota
Apenas por vaidade. / Não aceite conformismos,
Não conviva com modismos, / Viva a vida de verdade.

Ademar Rafael Ferreira
Marabá, PA – novembro 2003


25 Jun

ESCRITORES / POETAS: Maria Lúcia de Araújo Nogueira

Maria Lúcia de Araújo Nogueira

Advogada e escritora

Nascida em Afogados da Ingazeira, de lá saiu para residir na cidade do Recife, onde mora e está baseada sua família. Entre contos e crônicas publicados, destaco os dois livros escritos por ela: FRAGMENTOS DA VIDA E ABSTRAÇÃO, ambos inspirados na sua vivência familiar, no seu amor a vida e na descoberta de que pode escrever, sem medo ou vergonha no coração, apenas a certeza de que tudo é possível, quando se leva a verdade nos lábios.

A Maria Lúcia, parabéns e votos de que continue a criar e nos brinde com sua verte literária, anotando suas impressões sobre o cotidiano, sobre a vida, sobre o amor, num questionamento insofismável que ronda toda a nossa existência. Com os olhos encharcados por esse pitoresco trabalho, no mistério lírico de suas escritas, surgidas com o gemer do lápis em sua mão, peço que não estanque sua veia imaginativa e não tenha receio da avaliação crítica que virá, ela faz parte da aventura de quem aprende e quer melhorar.

Siga em frente, COM JEITO DE FAZER deixará de ser o jeito de você falar do amor, da fábula e do pitoresco, para se tornar um hino aos que não têm temor de ousar.

Alberto Nogueira Virginio.

O RIO DA MINHA TERRA

Alegria indizível trazida
Pelo ventre das chuvas dos ventos alísios.
O mandacaru florou,
A seca foi embora,

O feijão canivetou,
O milho encanou e bonecou,
Os barreiros encheram
E o gado refestelou-se na pastagem verdejante

Tudo isso porque o Rio Pajeú, que nasce em Itapetim
Correu para a minha cidade
E afogou o que estava queimado pelo sol,
A ingazeira renasceu.

As pedras estão brilhantes,
Ensaboadas pelas águas barrentas, que rebolaram
Pelas terras de São José do Egito,
Entram em Tabira e penetram leito adentro

Espichando garranchos
Destruindo a pasta verde que tomou o seu lugar.
O povo, em festa, pendura-se nas pontes,
E mergulha o olhar na imensidão da água que ocupa tanto.

Nem o açoite dos ventos,
Nem o balançar da ponte, tomada de gente de todos os credos
Nem os pilares mergulhados no barro,
Nem a cobra verde que pede socorro para não ser arrastada pelas águas ruidosas

Nem o ribombo do trovão,
Nem o alumiado dos raios,
Nada é capaz de tirar dessa gente, o feitiço provocado pelo Rio Pajeú
O alumbramento é tamanho

Que toda a destruição feita ao rio,
São águas passadas e levadas sem rastro,
O tapete verde foi puxado para dar passagem ao seu dono
Ausente por tanto tempo,

Mas presente na lembrança dos mais velhos que lhe respeitam
E seguem suas enchentes.
Um rio que nasce sozinho e que entra noutro rio
Que carrega Francisco no nome,

E é santo por devoção,
Porque ninguém encontra um rio tão necessário e cativo,
Que enrica quem o tem aos seus pés
Que dá do mesmo tanto que recebe.

No jeito retumbante que mostra,
Na cor amarelo queimado da terra,
No som profundo que traz,
Na garganta poderosa que possui,

No enfeite de renda branca espumosa
Ladeando um canto a outro suas barreiras.
A água, numa corredeira de beleza sem igual,
Não mitiga o azul do céu encoberto,

De cinza e chuva suspensa
Azul, amarelo, branco e verde da nossa bandeira,
Cores vivas e fortes
Que se tocam em harmonia

E se completam nos gritos dos trovões assustadores,
A soltar coriscos pinotando sobre os lajedos
Clareando seu caminho pelos raios potentes
Que rasgam o firmamento e se perdem na terra barrenta,

Encharcada de fortuna e abundância
Pelas enchentes do Pajeú
Que majestoso confirma seu reinado triunfante
E segue uma trilha só dele conhecida
Para encontrar e se misturar ao velho Chico mineiro,
E entrar no mar do mundo de todos os mistérios.

Recife, 18 de dezembro de 2009
Maria Lúcia Nogueira

RUSTICIDADE CRUEL

Nas pedras descobertas no Sertão esquecido,
Sem vegetação que as cubram, veem-se a olho nu,
Sujas de barro cru, as locas onde se escondem preás, punares
e outros bichos comuns, nos carrascais sertanejos,
Que se furtam do sol impiedoso que os queima.
Nesse mundo tão grande sobra espaço até para se tirar leite
de pedra.
Ou é leite do aveloz?
O preá e algumas aves matam a fome de tantos homens,
Que se espremem para viver
E ainda, são considerados parias da sociedade.
Homens honestos, simples,
Que não roubam, nem envergonham,
Mas que são considerados, por alguns, imprestáveis e
viciados em preguiça.
Esses homens não exigem nada, mas esperam mudanças
verdadeiras
Nos espíritos empedernidos e arrogantes daqueles que
podem ajudá-los
A sair dessa vida escondida, ornada de cactos e mulungus,
Eles também plantam na paisagem altiva que se agiganta a
cada ano.
O descaso com o desnecessário incomoda a quem não está
acostumado a viver com tão pouco.
O homem espreita o preá, que lhe escapa e sobrevive.
A rolinha voa e despista o alvo certeiro. Não é levada dentro
de um bornal, morta. Restando a estes homens, muitas vezes,
as vagens de mucunãns, para serem comidas de gente que
aguarda com pratos limpos, por algo que lhe caia do céu.
Esse sim, é o povo bronze, pintado em cinzel, crente,
Que perambula nesse solo de pereiros, caatinga, aveloz e
cactos,
Cocada de coco queimado, corajoso e astuto, consciente de
suas limitações, gigante em suas emoções.

Malu Nogueira
entrelacosdocoracao.blogspot.com

TZIU

O tiziu, com suas penas preto-azuladas,
Mais umas brancas no peito,
Pula de árvore em árvore,
Catando galhos sem folhas,
Pula e pula, sempre no mesmo lugar,
Em minúsculos vôos verticais,
Nos campos desse sertão longínquo
Chegou a vez dele,
Ele voltou feliz
E trouxe as chuvas
Que traz as folhas verdejantes,
Qual tapete tecido amorosamente
Recebem o inesperado hóspede
Ele olha tudo a sua volta
Confere, em alegria,
O que a chuva fez,
Muita semente verde, capim,
Frutas maduras, abertas para ele saborear,
Água para beber,
Amigos para tricotar,
Poleiros e mais poleiros para sacotear,
Que bom voltar e ficar
Nesses dias intensos,
Clareados por raios,
Despertados por trovões
Esfriados na garoa.
Mais amigos que chegam
A mostrar seus filhotes
Com alarido e penas
Nos galhos molhados e lisos
“tis-ziu, tis-ziu, tis-ziu
Canta em exibição o tiziu pretinho.
Toda passarinhada acode,
Vem ver o que o nego trouxe na bagagem:
Uma trouxa de fartura,
Um pacote de botões de flores,
Toneladas de sementes,
Sacos de pólen,
Balões de ar fresco,
As negras asas do pequeno tiziu
Vergaram-se sob o peso de tão preciosa carga.

Maria Lúcia de Araújo Nogueira
www.portaldoescritorpe.com

Quando do lançameno do seu livro COM JEITO DE FAZER (Edições BAGAÇO), o presidente da Academia Pernambucana de Letras fez sua apresentação:

Diletíssima Dra. Maria Lúcia de Araújo Nogueira.

ALGUMAS PALAVRAS COM SABOR DE SERTÃO

A mim, me coube, através de gentil convite, a subida honra desta saudação. Faço-a com a alma repleta de contentamento e o júbilo de quem fala sobre uma escritora que tem a mente transbordante de idéias e um desejo enorme de extrapolar os seus nobres sentimentos.

Conheço de perto a lavra literária da Dra. Maria Lúcia, essa sertaneja que traz no coração o bem querer da terra/berço e na memória, o panorama inconfundível da sua infância dividida entre a cidade e o campo. O campo donde emana o cheiro de curral e a cantata do carro de boi pela voz dolente dos cocões de aroeira.

Temos, afinal, a publicação de um dos livros dessa escritora. Digo assim, porque este “COM JEITO DE FAZER” não é a primeira obra escrita por essa espontânea poetisa. Já tive o prazer imenso de ler os originais de outros filhotes literários dessa sertaneja de Afogados da Ingazeira.

Nascida naqueles rincões e envolvida no manto sagrado da caatinga nordestina, acostumada a correr nas campinas verdejantes das várzeas do lendário Pajeú, rio cantado e decantado pelas violas plangentes dos repentistas de lá.

Vivenciada e conhecedora profunda da fala e dos costumes da gente do sertão, Maria Lúcia, possui um raciocínio rápido e uma privilegiada mente fotográfica, tendo ainda uma memória armazenadora de fatos e paisagens, do pretérito e da atualidade.

As flores das Ingazeiras, as que não foram afogadas, dos ipês roxo/amarelos, dos umbuzeiros e dos xiquexiques rasteiros da terra calcinada deram, com seu perfume, a inspiração poética e criativa dessa autora imediatista. A gargalhada heróica das casacas de couro, o canto mavioso do sabiá-do-sertão, o grito monocórdio da seriema, o descanso da codorniz nas moitas dos serrotões, toda essa paisagem enriquece a poesia dessa conterrânea.

Este “COM JEITO DE FAZER” traz nas suas páginas um somatório de prosas poéticas e versos heterométricos.

Dissociada dos rigores da métrica e do processo poético universal, Maria Lúcia, na ansiedade de expelir o conteúdo imagístico da mente, joga no papel a sua poesia esvoaçante, livre e desimpedida, telúrica e sertaneja, corajosa e independente. Poesia cheia do sabor nordestino: da buchada ao rubacão, do bode assado ao mugunzá, do cuscuz de ralo ao capão de chiqueiro.

Escritora neófita no mundo das letras, porém veterana no universo da vida. Bacharela em Direito e doutora formada pela universidade do Pajeú, berço de poetas iluminados pelo sol causticante do semi-árido, onde o som da viola confunde-se com o gorjeio do passaredo e a poesia assume a musicalidade incomparável, oriunda dos matagais rasteiros e das capoeiras ressequidas do Nordeste.

No poema ALVORECER, se referindo ao enlevo da adolescência junto ao namorado, diz a certa altura: “tudo muito inocente,/ mesmo o sutil toque das mãos./ a noite era cúmplice dessa felicidade infantil./ O desejo de descobrir estava estampado em nossos rostos. / O coração primaveril festejava o amor descoberto”.

Vemos neste poema o sentimento fraternal e romântico traduzido numa narrativa verossímil e autêntica da menina-moça sertaneja. Da menina acostumada com o falar do velho cachimbador, da mulher apanhadora de algodão, da cevadeira na casa de farinha, do menino caçador de rolinhas nas noites de facheadas, do vaqueiro encourado exibindo através do gibão a raça incomparável do homem campesino. Eis a convivência da adolescente, no dia-a-dia da vida e nas horas de recreio do colégio inesquecível.

Este livro, a primeira vista parece uma mistura de prosa e poesia, onde não se lhe deu uma seleção mais acurada. Não é bem assim. Ele demonstra o cabedal, a cachoeira de palavras que jorra da mente iluminada da poetisa. A produção literária de Maria Lúcia é abundante. As crônicas aqui expressas também se revestem de um conteúdo poético que lhes assegura e justifica a inserção no âmbito desta obra.

Em BOLO DE CASAMENTO encontramos uma grande criatividade:

Ingredientes:

“Um par de noivos felizes, / um par de alianças de ouro, / uma medida sem fim de amor infinito, / toneladas de respeito e paciência, / potes de sonhos, / um mundo de realizações, / uma pitada de sal, / fermento o quanto baste, / nuvens de carinho e alegria, / uma casa nova, / quilômetros de abnegação e zelo”.

Depois ela apresenta o modo de preparo.

Este é um poema criativo e ao mesmo tempo uma mensagem de convivência conjugal tão importante nos dias de hoje, onde o verbo “ficar” fala mais alto.

Destaco, a seguir, o conteúdo erótico/filosófico do poema:

UMA CERTEZA

“Meu pensamento questionador, não decifra o horizonte. / Na porta entreaberta do meu eu, há algo inacabado. / As estrelas que não vi no firmamento hoje, com certeza as verei amanhã. / O sol só me queimou, porque eu a ele me expus. / O vento não pediu permissão para mexer nos meus cabelos.

E conclui:

… O sol me queimou, para que eu me recordasse do calor que você deixa em meu corpo sequioso de afagos. / O vento quando me veio trouxe a lembrança de suas mãos a acariciarem minha pele, sedenta de traquinagem, por toda a minha vida”

Esta é mais uma característica deste livro: a liberdade de expressão, sem cacoetes, sem meias palavras, sem hipocrisia.

De repente, o livro COM JEITO DE FAZER fala com o jeito do Pajeú. As primas e os bordões das violas dos cantadores sonorizam os versos nas duas quadras do poema:

IMPROVISO DA VIOLA

“Não há nada mais perfeito / do que a viola que transcreve de leve / O canto triste que escreve / o retrato da dor do peito. / No meu canto eu guio / a aridez do meu coração / mesquinho e sem emoção / que por você rodopia sem fio”.

A miscelânea polimétrica de rimas consoantes deste poema destaca valor no livro e mostra uma abrangência considerável do jeito de escrever de Maria Lúcia. Do jeito como o povo do sertão se comunica: enquanto o violeiro se utiliza da métrica perfeita e da rima impecável na poesia, o povo sertanejo, independente dos cantadores, tem uma linguagem eminentemente heterogênea e descontraída.

Na quantidade de escritos desta cronista, a busca da qualidade fica mais viável, uma vez que há o universo quantitativo para a escolha exigente de cada leitor.

O livro COM JEITO DE FAZER chega ao cenário da literatura pernambucana. Quem ler este livro terá a oportunidade de perceber o transbordar verbal da autora. Ela insere ainda, uma crônica intitulada RUSTICIDADE ADOCICADA: um relato autêntico da lufa-lufa diária do homem do campo e o império da lei pela força maior: Pai Velho representa aqui o senhor de engenho semelhante aos seus ancestrais possuidores de escravos. Vale conhecer os detalhes das tarefas e a tramitação do trabalho na fabricação de açúcar, rapadura e aguardente no sertão e em todo o Nordeste brasileiro.

Receba Dra. Maria Lúcia de Araújo Nogueira, os meus parabéns e a certeza de que o seu fazer literário terá lugar no âmbito da literatura pernambucana. Prossiga na sua missão vocacional de sempre escrever. Abra o cofre intelectivo da mente, burilando a sua prosa/poética com o objetivo primordial de mostrar que a arte é coirmã da técnica e da beleza.

A brisa mansa do Pajeú e o arrulho da asa-branca serão sempre porta-vozes fidedignos da sua poesia.

Muito obrigado!

Carlos Severiano Cavalcanti


16 May

Tempos Cruzados

Onde está a paixão?”, “Indefinidamente”, “Homem da terra”, “Nenhuma calma é eterna” ou “Se te amo tanto” intitulam alguns dos cerca de 30 poemas que preenchem as 62 páginas de “Tempos Cruzados”, ladeados pelos desenhos a preto e branco da pintora e ilustradora Kala.
Na apresentação do livro, uma sessão que contou com a presença de muitos convidados e amigos da autora, Rui Graça realçou a qualidade da escrita e da obra de Virgínia do Carmo, definindo-a como “a suavidade de uma brisa”, uma poesia que “cativa pela simplicidade no modo como diz o que tantas vezes sentimos, sem, contudo, o sabermos dizer, proporcionando ao leitor um efeito de espelhamento”.
“Tempos Cruzados” é um livro onde a poesia gravita em torno do amor, tendo como pano de fundo os alentos e desalentos das relações interpessoais, onde a dedicação parece ser, segundo o editor, o “elemento obreiro e vigilante” desta obra, centrada numa relação que se destaca de outras relações, tornando-a “especial e única, romanticamente singular”.
Marcado pela apurada sensibilidade da escrita de Virgínia do Carmo e pelos desenhos “esculpidos a traço pela sensibilidade atenta” da pintora e ilustradora Kala, “Tempos Cruzados” torna-se ainda, na perspectiva de Rui Graça, “um livro duplamente no feminino, num uníssono de sensibilidade artística.”
A obra, que vem na sequência de um anterior trabalho divulgado aos 17 anos, e a que Virgínia do Carmo chamou a sua “fase iniciática da escrita”, aparece, na opinião da autora, como “uma mão-cheia de poemas sobre vidas que se cruzam, retratos de emoções que se entrelaçam em encontros e desencontros.”
Para além da poesia, uma actividade que faz com grande espontaneidade, a autora, que tem vindo também a colaborar com Mensageiro de Bragança, pretende dedicar mais tempo à prosa, preparando já um novo trabalho que, ainda sem data prevista, gostaria de ver igualmente publicado.

F. Jorge da Costa (In Mensageiro de Bragança)


16 May

Caderno nº 3 do Projecto “Terras Quentes”

Já saiu o Caderno nº 3 do Projecto “Terras Quentes”.

Esta edição foi lançada no passado dia 28 de Maio no âmbito da realização das “Jornadas da Primavera”, promovidas anualmente pela Associação de Defesa do Património Arqueológico de Macedo de Cavaleiros.

Este volume encontra-se recheado com 13 artigos que abordam temáticas que vão da Arqueologia do concelho de Macedo de Cavaleiros até à Antropologia, Restauro, Etnografia e Arte Religiosa.

O Caderno nº 3 Terras Quentes conta com a participação de Helena Barranhão, João Pedro Tereso, Carlos Mendes, Hélder Carvalho, Ana Gozalo, Senna – Martinez, José Ventura, Elin Figueiredo, António Cravo, Ana Gaspar, Mafalda Jorge, Lécio Leal, Luís Rodrigues e Lília da Silva.

A edição apresenta-se com uma boa qualidade gráfica e com um design atractivo.

Autores: Vários
Edição: Associação de Defesa do Património Arqueológico do Concelho de Macedo de Cavaleiros ” Terras Quentes”.
Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros


16 May

O Padroeiro da Ibéria”, um romance histórico de altíssima qualidade do escritor transmontano Jorge Laiginhas

D. Nun’Álvares Pereira (1360-1431) é um dos condestáveis do reino de Portugal mais afamados da nossa história. Durante a crise de 1383-1385, desencadeada pela morte de D. Fernando, que colocou em risco a independência de Portugal, liderou o exército português a várias vitórias, sendo a mais conhecida a da Batalha de Aljubarrota. Depois de enviuvar, entrou para o Mosteiro do Carmo, por ele fundado, tomando o nome de frei Nuno de Santa Maria. Por ter dedicado os seus últimos dias à Igreja e a ajudar os mais pobres, após a sua morte o povo apelidou-o de Santo Condestável. Foi beatificado em 1918.

Alternando períodos históricos, em que relata episódios da vida de D. Nun’Alvares Pereira, e a actualidade, na qual se desenrola uma trama que tem por pano de fundo o movimento iberista, que pretende unificar Portugal e Espanha, O Padroeiro da Ibéria é um livro inquietante, pleno de mistério.

Excerto

“O Mestre apertou-me a mão sem dizer uma só palavra que fosse. Apenas genuflectiu. Como se eu fosse um santo e ele um adorador do santo. O ex-ministro falava. Eu escutava. Explicou-me que o movimento ‘A Ibéria’ tem já ‘irmãos’ infiltrados em todos os executivos municipais raianos, de um e do outro lado da fronteira; que grandes empresários portugueses e espanhóis estão a financiar toda a logística do movimento; que as chefias das forças armadas de ambos os países estão representadas no sinédrio; que por voto secreto, no sinédrio do dia 6 de Novembro de 2000 – 6 de Novembro é o dia festivo de frei Nuno de Santa Maria – se aprovou que, após a reunificação da república portuguesa e do reino espanhol, o regime político da Ibéria – assim se passará a chamar a grande nação que irá resultar da reunificação da Península Ibérica – será a Monarquia Constitucional… Quando saímos da Casa da Câmara, já próximo do meio-dia, reparei, não obstante o nevoeiro, que estava a ser observado por três homens sentados nas escadas da Torre dos Namorados. Rodei a cabeça, como quem se sente perseguido, e pude ver uma senhora em pé na Torre do Monte. Segurava uma máquina fotográfica com uma enorme objectiva e disparava fotografias na minha direcção como se, ela, fosse um soldado a disparar, raivosamente, sobre o inimigo. – Não se assuste, professor. São ‘irmãos’ – sossegou-me o ex-ministro. – Olhe, disfarçadamente, na direcção da Torre do Relógio e verá que também aí temos vigias. Gostamos de fazer estas cerimónias em recato. Desta maneira, em pequenos grupos e com máquinas fotográficas ou sacos a tiracolo, passamos por vulgares turistas. Alguns de entre nós, nunca os mesmos no espaço de três meses mesmo que em lugares diferentes, conversam com os habitantes locais e compram produtos da região.”

Edição/reimpressão: 2008
Páginas: 264
Editor: O Quinto Selo

Link para compra do livro.

Crítica

“Jorge Laiginhas é decerto um dos valores mais sólidos da actual literatura de ficção trasmontana e alto-duriense. Senhor de uma técnica narrativa seguríssima, de uma linguagem ágil e bem servida de metáforas, tem vindo a publicar regularmente os seus romances, numa primeira fase muito ligados ao Douro natal e agora, numa segunda fase, mais presos a personagens e factos da vida nacional.
É assim que acaba de surgir, com a chancela de O Quinto Selo, O Padroeiro da Ibéria – D. Nuno Álvares Pereira, título que se afigura contraditório, dado que o Santo Condestável foi exactamente um dos travões ao iberismo, mas que o desenrolar do entrecho acaba por justificar.
Neste romance que se lê dum fôlego, não obstante as suas 260 páginas e a estrutura algo invulgar, Jorge Laiginhas faz a apologia do Iberismo, uma das ideias mais polémicas, mas também mais recorrentes, do nosso pensamento político. De resto esta sua opção pela Ibéria é tão enraizada, que na badana do livro se lê: “Jorge Laiginhas nasceu na aldeia de Safres, Península Ibérica (…)” In site do “Grémio Literário Vila – Realense”.

Esboço Biográfico

Jorge Laiginhas nasceu em Safres, povoação da freguesia de São Mamede de Ribatua, concelho de Alijó, em 1961; licenciou-se em História e tem uma pós-graduação em Ciências Documentais.

É Director da Biblioteca Municipal de Alijó e autor, entre outras, das seguintes obras: Ressaca em Ribatua. Romance, Lisboa, Editorial Escritor, Ldª, 2001; Monárquica paixão. Romance, Lisboa, Editorial Escritor, Ldª, 2002; No poisar do silêncio. Romance, Lisboa: Editorial Escritor, Ldª, 2003; O segredo de D. Afonso Henriques. Romance, Cascais, Flamingo, 2007; O Padroeiro da Ibéria, D. Nun´Álvares Pereira. Romance, O Quinto Selo, 2008.