10 Aug

CÉU ESTRELADO – O cobertor da noite

Quando na ausência da luz do dia, a noite foi chegando sem pressa, tentei fugir, esconder-me de algo que denunciava o meu ato libertino.

O céu acordando aos poucos, com um sorriso preguiçoso, olhos semi-serrados, deixando as estrelas aos poucos darem suas caras, olhava pra mim como quem dizia: eu sei.

Eu, réu culpado,não tinha como mentir, provas convictas estavam em cena, logo no exato momento em que se encontrava eu e o amante unificando o sabor da carne, olhei nos olhos das estrelas e senti o ardor e o frio da madrugada cheia de sussurros e carícias.

Culpada! Soube disso nesse momento e apreciei sentir o gosto do pecado sem temor.

O decifrar da loucura, o sabor, a pele ressacada.

O que seria a coisa senão meus pensamentos que cochichavam nos meus ouvidos quando eu tentava escapar daquele corpo que já alheio ainda me tocava.

E tentando apagar aquele drama, pincelei a tela tentando mudar a paisagem, no entanto, a tinta dos meus conflitos tornava-se incolor diante do cesto de frutas maduras do pomar

O gosto ainda me deixa com água na boca.

Chuva que cai e alimenta as flores que sentem fome.

O SILÊNCIO DA NOITE É QUE TEM SIDO
TESTEMUNHA DAS MINHAS AMARGURAS

No cenário desbotado do meu quarto / Pela janela a luz da lua, ilumina
A presença da alma feminina / Com os restos de beijos e abraços,
A camisa esquecida deixa os traços / Da lembrança que passa desprezada,
Um pedaço de coisa já passada / Do amante que ha muito tem partido,
O silêncio da noite é que tem sido / Testemunha das minhas amarguras

Pelas ruas eu já perambulei / Procurando a resposta da tristeza,
Mas o que encontrei foi a frieza / Da verdade esmagando um sentimento,
Enrolei-me no lençol do sofrimento / Só por causa da tua ingratidão,
Mas se hoje implorasse o meu perdão / Eu chorando aceitava o teu pedido,
O silêncio da noite é que tem sido / Testemunha das minhas amarguras

Sou agora uma amante esquecida / Parecendo um cadáver sem ter dono,
Minha alma já entregue ao abandono / Esqueceu-se do meu corpo e foi embora,
Mas a dor que meu peito tem agora / Só me lembra aquele que partiu,
Sem nenhuma piedade me feriu / Fazendo-me perder todo o sentido,
O silêncio da noite é que tem sido / Testemunha das minhas amarguras

Sou um vulto açoitado pela noite / Solidão que habita a madrugada,
Um mendigo deitado na calçada / Com os olhos de quem não tem comida,
Sou saudade de coisa já perdida / Só um feto doado ao abandono,
Sou um cão que se perdeu do dono / Sou as rugas de um velho esquecido,
O silêncio da noite é que tem sido / Testemunha das minhas amarguras.

Izabel Goveia, poetisa afogadense